As Deusas*
Direção: Walter Hugo Khouri.
Brasil, 1972.

Por Gabriel Carneiro

Mulher deprimida vai, com o marido, para a casa de campo de sua psicóloga, por recomendação da própria, com o objetivo de encontrar a paz em meio à natureza. Tudo parece normal, mas a angústia dessa mulher é tão grande, que não aguenta, telefonando desesperada para a terapeuta e clamando sua ida ao refúgio. Envolto por uma obscuridade, o ambiente faz a psicóloga sucumbir a uma série de tentações e sentir as perturbações de sua paciente.

Walter Hugo Khouri, ao longo de mais de 50 anos de carreira no cinema, passou incólume por todos os fazer cinema em São Paulo, da Vera Cruz à produção independente, da Boca do Lixo, à Embrafilme e à Retomada. Incólume porque, mesmo trafegando em diferentes formas de se produzir, nunca perdeu sua autenticidade e sempre manteve seu projeto de cinema intimista e existencial, fossem em dramas, suspenses, filmes de horror ou comédias. O preâmbulo armado por Khouri em As Deusas, que inicia este texto, é exemplo perfeito disso. Egresso do cinema sofisticado urbano feito em São Paulo nos anos 1960, após estourar em termos de público e conseguir prestígio internacional (dois filmes dos nove filmes anteriores competiram por uma Palma de Ouro em Cannes, a saber, “Noite Vazia”/1964 e “O Palácio dos Anjos”/1970), Khouri ingressa no cinema das Boca do Lixo justamente com esse As Deusas, primeira parceria com a Servicine de Alfredo Palácios e A. P. Galante.

A Servicine sempre teve a pretensão de fazer público, de ganhar dinheiro com o que produzia, daí baixíssimos orçamentos, temas populares, fórmulas exploradas à exaustão, etc, etc. Khouri era um sujeito que raramente trabalhava temas estritamente populares – seus personagens de classe média trafegam por espaços, situações e sensações que dificilmente eram vistos na Boca do Lixo -, nunca entregando tudo facilmente, ainda que tenha tido grandes sucessos de público. É impressionante pensar em As Deusas como um filme da Boca, mesmo que seja um típico Khouri, porque o cineasta parece radicalizar algumas de suas experiências estético-narrativas. Mestre na criação de atmosfera, o diretor calca seu filme praticamente nesse elemento, de certa forma, abrindo o precedente para os filmes de horror que dirigiu, “O Anjo da Noite” (1974) e “As Filhas do Fogo” (1978), em que o verbo é deixado de lado em favor do abismal e do efeito do ambiente nas ações e nos sentimentos de seus personagens.

Ainda que exista, em As Deusas, breves diálogos explicativos sobre a psique da protagonista, isso está longe de promover a insanidade contagiosa que vemos no filme, quando a personagem de Lilian Lemmertz – impecável – corre desesperada pelo bosque da casa, delirando, com uma câmera explosiva, andando em círculos. Essa capacidade de narrar uma história que Khouri tinha era sua grande qualidade. Notável em saber o que fazer com a câmera, era grande diretor de atores, sabendo exatamente o que extrair deles. Bastam um olhar de Lemmertz, de Mário Benvenutti (o marido) ou de Kate Hansen (a terapeuta) para a história evoluir.

A capacidade expressiva dos atores constrói, ao lado da câmera e a trilha do habitual colaborador de Khouri, Rogério Duprat, a atmosfera de As Deusas. No filme, há uma linha muito tênue entre a loucura e a sanidade, entre a sedução e o assédio, entre o prazer e a dor; tudo é jogo. Ali, tudo misturado, existe uma consciente liberdade dada ao espectador de fazer o juízo que lhe for, de lhe provocar aonde lhe diz mais, tamanha a ambiguidade provocada por Khouri – que casa perfeitamente com o tema retratado no filme. Mais: sem propor qualquer explicação racional. Quanto mais os personagens se impregnam por aquela dualidade, em que a clareza de pensamento ou mesmo de ações deixa de existir, mais se prendem a uma realidade, seja ela qual for, a ponto de ser algo quase compulsivo, numa espécie de buraco negro existencial.

Khouri ficou marcado como um sujeito que fazia pornô chic, por mais errado que isso seja. Era o sujeito que fazia filmes com um erotismo latente, em que o sexo era uma exasperação da liberdade corporal, nada vulgar, em ambientes de classes mais abastadas. Isso muito derivado das questões existenciais tão caras a Khouri e que tanto identificavam essa classe ora alienada, ora despropositada, que não sabia muito para onde ir. As reminiscências deixadas pelo cineasta em seus filmes, especialmente nesses em que a atmosfera reina frente ao verbo e que o ambiente tem um papel tão opressor ao âmago do individuo como as dificuldades vistas nos filmes de cunho social, demonstram muito mais do que a maestria em filmar, permitem aos espectadores investigarem suas próprias personas a partir do que o filme propõe, para o lado que tender sua interpretação.

*Publicado originalmente no site Cinequanon, em março de 2013, dentro da coluna Viva a Boca do Lixo.

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