O Olho Mágico do Amor*
Direção: Ícaro Martins e José Antonio Garcia
Brasil, 1981.

Por Gabriel Carneiro

(pode conter spoilers)

O cinema paulista dos anos 1980 ficou marcado por uma renovação em seus quadros. Com a Boca do Lixo caminhando para o cinema de sexo explícito – sem volta, a partir de 1984 -, coube a uma série de jovens estreantes ocupar o mercado – além, claro, de alguns notáveis cineastas egressos de outros períodos. Eram jovens, em geral, vindos da universidade, estudantes de cinema, fato meio raro – parte da primeira geração da Boca havia cursado a Escola Superior de Cinema, das Faculdades São Luís, mas todos abandonaram no meio. Diversos estudantes da ECA/USP estrearam como diretores em longas-metragens nos anos 1980.

Antes da Boca se entregar completamente ao cinema de sexo explícito, dois uspianos aproveitaram-se dos meandros do sistema para fazerem seus filmes – quebrando bastante a lógica seguida pelos ex-alunos, que preferiam manterem-se distantes da Boca quando encaravam a direção. Contemporâneos de ECA, mas amigos apenas depois do fim da faculdade, Ícaro Martins e José Antonio Garcia buscaram em Adone Fragano, produtor da Boca, dono da Olympus Filmes, uma forma de transformar ideias em filmes. A Boca, apesar de trabalhar com baixos orçamentos e uma série de contrapartidas, era a melhor forma de se conseguir levantar dinheiro para fazer um longa sem depender das migalhas que a Embrafilme oferecia na época ao cinema paulista. Martins e Garcia, proporiam, de certa forma, dentro daquele esquema, um novo olhar para o fazer cinema na Boca.

A dupla estrearia com O Olho Mágico do Amor, em 1981, e ainda faria, com a Olympus, “Onda Nova” (1983) e “Estrela Nua” (1985), antes de se separarem. Garcia fez, solo, “O Corpo” (1991) e “Minha Vida em Suas Mãos” (2001) – preparava seu sexto longa quando sofreu um infarto fulminante, em 2005. Martins codirigiu com Helena Ignez “Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha” (2010).

Atípico à época para o cinema da Boca, a dupla chamou bastante atenção da crítica com sua estreia, um filme que subverte algumas das principais convenções do cinema erótico praticado por aqui, sem se afastar completamente a ponto de perder seu público – similar ao que outro estreante faria no mesmo ano, Guilherme de Almeida Prado em seu “As Taras de Todos Nós”. De fato, estão lá a nudez e o sexo em abundância, uma história que envolve desejos etc. Martins e Garcia, porém, assumem o olhar feminino e fazem de seu filme um libelo à liberdade sexual da mulher – busca constante, aliás, nos filmes da dupla. No longa, a jovem Vera (Carla Camurati) parte em busca de seu primeiro trabalho, como forma de sair de casa. Consegue um emprego de secretária da Sociedade Paulista de Amigos da Ornitologia, localizada na R. do Triumpho, coração da Boca – a locação foi o escritório redecorado de Adone, inclusive. Lá, encontra um orifício na parede, que dá para o apartamento de uma prostituta (Tânia Alves). Nos momentos de ausência do diretor da sociedade, Vera se descobre e se desprende do papel de mulher oprimida – pelos pais, pelo namorado, pela sociedade. Cada homem que passa, um fetiche diferente.

Mesmo, eventualmente, tendo de lidar com a truculência machista e ignorante do cafetão, Vera encontra no fascínio com a figura da prostituta e na fantasia que emerge disso sua liberdade. O voyeurismo no filme, assim, ganha um novo contexto para além da invasão de privacidade. O que Vera observa se espelha em sua vida e em seus desejos – não importa o que lhe acontece enquanto não vislumbra o olho mágico, a fantasia lhe permite outras experiências; experiências que suplantam qualquer outra coisa.

Nessa trajetória um tanto singular, vale destacar o caráter lúdico escolhido por Martins e Garcia em vários momentos, seja a cantoria de Cida Moreira na casa, seja a fuga do bandido – com sua iluminação completamente artificial digna do neon-realismo. Em especial, porém, no encontro entre as duas moças do filme, num cenário de fundo infinito, como se uma festa acontecesse. Ali, pouco importa se a ação – que quebra completamente a imersão no longa – é fruto da imaginação da protagonista ou se é apenas uma liberdade representacional de um fato real do filme. Tudo aponta para uma direção: sempre em frente, sem remorsos.

*Publicado originalmente no site Cinequanon, em maio de 2014, dentro da coluna Viva a Boca do Lixo.

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