Terapia do Sexo*
Direção: Ody Fraga
Brasil, 1978.

Por Gabriel Carneiro

Ody Fraga foi um dos sujeitos mais produtivos da Boca do Lixo. Dirigiu 25 filmes e roteirizou mais de 60. Entre eles, um dos mais atípicos do local, o documentário com momentos de ficção Terapia do Sexo. O híbrido é uma das coisas mais estranhas que se fez na Boca do Lixo, podendo ser dividido em três partes, que conversam muito mediocremente entre si. Na primeira, um conjunto de desenhos estrangeiros, em particular indianos, com uma narração que clama pelo caráter exótico do sexo em outras tradições culturais; na segunda, uma explanação ilustrada dos problemas sexuais mais comuns encontrados em casais; e na terceira, um exploitation sobre problemas de saúde advindos do sexo, entre outras mesuras a se tomar precauções.

Mesmo reforçando alguns estereótipos, padrão da produção da Boca do Lixo, Ody Fraga cria uma obra deveras inusitada, especialmente pelas partes dois e três. É notável o jogo que Fraga faz, em especial no segundo entrecho, quando encena os problemas de comportamento no âmbito sexual que um casal pode ter. Tendo como ensinamentos os dizeres do psicólogo José Ângelo Gaiarsa, Ody segue a simples fórmula da dramatização. Mas há muito mais que isso, a começar pela encenação. A parte documental do entrecho consiste em Gaiarsa falando num gravador sobre os possíveis problemas que um casal pode ter. A ficcionalização é feita toda num estúdio, com fundo pintado de uma coloração não usual (vermelho, etc), e os objetos de cena indispensáveis (cama, criado-mudo, etc), tal qual um esquete cômico não-cinematográfico, com os atores performando o que é dito por Gaiarsa. O tom de leveza, tão criticado por José Carlos Monteiro, d’O Globo, um dos poucos a escreverem sobre o filme na época, é seu grande trunfo. Ody sabe que a melhor maneira de tocar em questões tão delicadas é buscar a leveza e o humor para tirar a seriedade do fato, pois não precisa ser encarado como tabu. Usa assim o fazer cinematográfico como um ensinamento quase antropológico, ao fazer o espectador rir dos próprios problemas – porque, claro, é natural que todos se identifiquem com ao menos algum aspecto do que Gaiarsa está falando, seja do sujeito que prefere sexo matinal à garota que gosta de trocar palavras românticas antes do ato, não tendo, ambos, obviamente, correspondência com o parceiro/a.

Mesmo porque o discurso de Gaiarsa, extremamente avançado ainda hoje quanto a questões sexuais, vai justamente à direção de acabar com os tabus e apontar tais problemas como questões banais, comuns. No mesmo sentido, é muito cômico – por questões extra-fílmicas – quando Gaiarsa é subitamente cortado durante sua exposição sobre a normalidade do homossexualismo e posteriormente sobre a erotização durante a infância. Cômico, pois sabemos que aqueles cortes abruptos são feitos por conta da censura do Regime Militar, que desaprovava que esse conteúdo chegasse à população – subversivo demais, talvez.

Tão abrupto quanto isso é a mudança da segunda para a terceira parte. Quase do nada, Terapia do Sexo segue o inusitado caminho de mostrar diferentes profilaxias contra DST e gravidez, acompanha a consulta de uma moça num ginecologista e conversa com especialistas sobre doenças e acompanhamento médico. Se faz sentido dentro de uma lógica educadora, é estranhíssimo conceber tal filme dentro da produção da Boca do Lixo, que priorizava empreendimentos que fossem dar retorno financeiro – e, convenhamos, um filme que mostra o que são DSTs através de desenhos bastante realistas e uma cesariana não é necessariamente algo que aponte para um grande sucesso financeiro (ao que parece, o filme teve bom retorno sim nas bilheterias).

O mais interessante no último extrato é como Ody Fraga incorpora os filmes exploitations originais, aqueles que usavam do caráter educativo para passar na censura do Código Hays, nos anos 30 e 40, nos EUA, mostrando cenas de nudez, entre outros, em uma época em que tudo relacionado a sexo era um grande tabu. E vemos, em Terapia do Sexo, mulheres despidas para consultas, detalhes mórbidos sobre genitálias e outras questões que tanto atraíam o público para os exploitations.

A título de conhecimento, Terapia do Sexo é um dos pouco – se não o único – documentário feito na Boca do Lixo. É, portanto, curioso ver o uso do som direto, já que não havia como dublar as entrevistas e as palavras espontâneas de Gaiarsa. Curioso porque nos permite vislumbrar a ineficiência da prática: o som era muito mais ruidoso, captando os barulhos da câmera, e a qualidade era igual à da dublagem da época.

*Publicado originalmente no site Cinequanon, em agosto de 2012, dentro da coluna Viva a Boca do Lixo.

Anúncios