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O Último Cão de Guerra*
Direção: Tony Vieira
Brasil, 1979.

Por Gabriel Carneiro

Para os que esperam do cinema roteiros bem amarrados, atuações inesquecíveis, grandes sacadas e inovações estilísticas, os filmes de Tony Vieira talvez não sejam a melhor opção. Artista autodidata, que começou como servente na Companhia de Cimento Itaú, nos anos 1960, chamando a atenção nos shows de calouro, Tony – nascido Mauri de Queiroz – logo foi convidado pra atuar na TV, em novelas. O cinema veio logo depois, fazendo participações espirituosas em filmes como “Panca de Valente” (1968), de Luís Sérgio Person. Não demoraria a estrear na direção e produção, e se fundar como um dos poucos astros no star system da Boca do Lixo, ao lado de David Cardoso. Vieira era ícone do anti-herói inescrupuloso que trabalhava para o bem, especialmente em filmes de ação, policiais e faroestes, que deram muita bilheteria.

Tony fazia filmes mirando um público-alvo, aqueles assíduos frequentadores dos filmes da Boca do Lixo, sedentos por ação e mulheres nuas. Nos seus filmes, não faltava nada disso. O Último Cão de Guerra é um desses filmes inacreditáveis, do plot aos diálogos, da encenação às caracterizações. Tudo parece tão absurdo, que facilmente poderia ser engendrado como o mais puro trash – segundo os padrões de qualidade ditados pela intelligentsia cinematográfica. O que poucos parecem apreender é a autenticidade de um filme como O Último Cão de Guerra, que vai direto ao ponto quanto ao que lhe interessa: divertir e entreter, com uma história mirabolante, repleta de ação e nudez. Todo o resto seria apenas verniz – coisa, dentro dos padrões orçamentários da Boca, completamente dispensável.

Em O Último Cão de Guerra, um sobrevivente general nazista agrega um bocado de gente sob sua ideologia na América Latina e põe em prática seus experimentos numa área rural. Pretende dominar o mundo, mas não tem estrutura. Sequestra um bocado de lindas garotas locais que devem parir filhos de uma raça superior. As que não servirem a esse propósito, devem ser postas a uma série de atrocidades, para medir quanto tempo uma pessoa aguenta a dor. Os pais dessas garotas contratam então uma dupla de mercenários, Jô (Tony Vieira) e Gato (Heitor Gaiotti, seu parceiro habitual e alívio cômico), para acabar com os nazistas.

Vieira mistura em seu filme gêneros muito populares à época, para além da ação, como o nazisploitation (filmes que exploravam os nazistas como mote para atrocidades sádicas e sexuais), o WIP (women in prison, filmes com mulheres aprisionadas) e a ficção científica. De cada, Vieira busca apenas o essencial para trabalhar sua linha narrativa. Pouca importa se a ideia de mercenários contratados por lavradores para combater nazistas na América Latina pareça absurda. Talvez seja esse justamente o elemento que tanto lhe interessasse, essa anarquia narrativa – com direito a cenas antológicas, que fogem completamente de uma estética realista e mesmo paródica, como quando Jô aporta de seu helicóptero no meio do mato perguntando onde é a revolução.

Dentro desse absurdo todo que é o filme, que desafia as mais simples lógicas, para surpreender sempre o espectador com reviravoltas objetivas – não lhe interessa o suspense da reviravolta, apenas seu desenrolar na história -, Tony Vieira demonstra ao menos uma importantíssima qualidade como diretor – já que composição de quadro ou direção de atores pouco lhe importava -, o domínio do ritmo. Ele sabe como poucos na Boca dar o tempo exato para cada cena ou ação, sem tornar-se enfadonha pela lentidão ou pelo excesso, equilibrando embates físicos, nudez, conversas etc.

Vieira não gostava de dirigir, seu barato estava em estrelar os filmes e produzi-los, ganhar dinheiro com uma arte de que tanto gostava. Enquanto diretor, então, buscava aquilo que sabia fazer diferença aos seus filmes de gêneros, que era conduzir o espectador. O humor escancarado e deslavado de Gaiotti, a beleza de suas musas – nesse caso, Cristina Kristner e Arlete Moreira -, a bravura despojada de Vieira em papéis que confirmavam sua masculinidade: tipos que apenas reforçavam a narrativa do extraordinário que tanto lhe interessava, como cineasta.

Se a aposta no absurdo para trabalhar o extraordinário pode estar tão longe de uma estética naturalista/realista, em geral celebrada pela historiografia, e ao mesmo tempo do registro paródico, em que o filme é uma maneira de rir de si próprio e de suas limitações enquanto cópia, neste caso, resta apenas entender Tony Vieira como um cineasta essencialmente autêntico a tudo que acreditava enquanto cinema. A veracidade transborda em O Último Cão de Guerra.

*Publicado originalmente no site Cinequanon, em fevereiro de 2014, dentro da coluna Viva a Boca do Lixo.

Amor de Perversão*
Direção: Alfredo Sternheim
Brasil, 1982.

Por Gabriel Carneiro

Realizado como projeto de encomenda para Paulo de Tarso Silveira e Fritz Jordan, que queriam entrar para o mercado cinematográfico com um melodrama, Amor de Perversão é talvez a produção com mais dinheiro de Alfredo Sternheim – além de elenco de primeira, que inclui nomes como Paulo Guarnieri, Leonardo Villar, Norma Blum, Raul Cortez, entre outros, uma grande equipe, com Carlos Reichenbach na fotografia e Zé Rodrix na música, o filme tem até grua, coisa raríssima nas produções da Boca do Lixo. O filme se centra na desilusão com a vida de um jovem universitário (Guarnieri), filho de um magnata das indústrias que teve de reconstruir sua carreira do zero depois de um grande incêndio.

Alfredo Sternheim, jornalista e crítico de cinema, começou como assistente de Walter Hugo Khouri – “A Ilha” (1963) e “Noite Vazia” (1964) – e dirigiu 24 longas, metade deles com sexo explícito, após a decadência da Boca. Até lá, dirigiu algumas pérolas, como “Anjo Loiro” (1972), “Violência na Carne” (1981), “Tensão e Desejo” (1983) e sua obra-prima, “Pureza Proibida” (1974). Sternheim, cinéfilo, sempre foi grande admirador dos melodramas e do cinema clássico. Não à toa, seus filmes sempre contavam grandes histórias de amor ou tragédias insólitas. Sempre com um tratamento clássico: o que lhe interessava, acima de tudo, era contar uma boa história, acessível a todos os públicos, de maneira a tocar sua audiência – a emoção acima da razão.

“Amor de Perversão” segue essa tendência: melodrama clássico, com o apelo erótico que a Boca exigia – com a musa Alvamar Taddei liderando o elenco feminino. A angústia de seu protagonista, o jovem ricaço, é de origem existencial: já que não há amor em sua vida, não vê propósito em se interessar por nada que lhe impõem – a profissão, os estudos, a noiva etc. Como filho de magnata, sua vida inteira foi traçada pelos pais. Deve, portanto, seguir a tradição e os bons costumes. Quase como um Khouri com vertente social e moral – sem o mesmo brilhantismo, porém, ao trabalhar as angústias internas -, “Amor de Perversão” aposta na máxima tragédia. Quando, enfim, o rapaz encontra uma paixão, sua família a rejeita, por ser de classe social diferente e tida como inferior.

Há um elogio evidente à sensibilidade popular. O popular é autêntico – se fala na lata ou se é rude, aquilo faz parte de uma sinceridade crônica, sem o propósito de ofensa. Em oposição, vemos os ricos, que desdenham de qualquer pessoa que não se comportem da mesma maneira deles, ou que não tenham o mesmo dinheiro. São esnobes e controladores, limitados a uma visão de mundo antiquada. Sternheim sempre foi um libertário, que acredita na liberdade e na individualidade da mulher e das minorias, em oposição ao machismo reinante na Boca. Suas mulheres são fortes, decididas, quando heroínas. O papel marcante em “Amor de Perversão” é justamente o de Alvamar, a namoradinha de classe social tida como inferior. Ela se sustenta, sabe o que quer e sabe controlar em sua vida tudo aquilo que é reprovado socialmente – drogas, sexo etc. Se o personagem de Guarnieri entra num redemoinho sem volta é porque ele não sabe se portar sem a tutela financeira e comportamental dos pais. A crise, mostra Sternheim, não é a da falta de amor, e sim a de não saber ser independente dos outros. Quase como se dissesse que o problema de toda a família é não aceitar o mundo e sua independência – a expectativas para com os outros é que frustra a vida de todos.

O filme peca quando quer ser ainda mais melodramático. Se toda crise do jovem e a questão moral se coadunam muito bem dentro do classicismo de Sternheim, o excesso torna-se apelativo ao final, extremamente desnecessário. A desilusão basta ao filme. Sternheim acaba pesando a mão no roteiro, buscando escancarar o drama, sem desenvolver propriamente, ou tentando, através do choque das revelações, potencializar a emoção. Nisso, perde justamente a força de até então – e afasta “Amor de Perversão” dos grandes filmes de Alfredo, ainda que seja um belo trabalho a ser conferido.

*Publicado originalmente no site Cinequanon, em janeiro 2014, dentro da coluna Viva a Boca do Lixo.

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