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Como Consolar Viúvas*
Direção: J. Avelar (pseudônimo de José Mojica Marins)
Brasil, 1976.

Por Gabriel Carneiro

José Mojica Marins entrou para a história do cinema brasileiro como o sujeito a bancar o gênero horror em terras tupiniquins, realizando obras-primas diversas nessa seara, e por inventar um personagem popularíssimo no imaginário brasileiro, o Zé do Caixão. Seu auge esteve nos anos 1960, quando dirigiu, entre outros, “À Meia-Noite Levarei sua Alma” (1964), “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1966) e “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” (1968). Em 1969, dirigiu sua obra máxima, o horror psicodélico “Ritual dos Sádicos”. Interditado pela censura, o longa só seria lançado em 1983 sob o título “O Despertar da Besta”. A perseguição da censura para com Mojica foi crucial para seu destino. Os produtores, não confiantes com o que poderia acontecer aos seus novos filmes, pararam de bancar as fitas de horror do cineasta. Para sobreviver, Mojica teve que investir nos mais diversos gêneros cinematográficos, fazendo filmes de encomenda. Fez, assim, filmes de aventura (“Sexo e Sangue na Trilha do Tesouro”/1970), faroestes (“D’Gajão Mata para Vingar”/1972), e comédias eróticas.

Como Consolar Viúvas é sua segunda e última comédia erótica. Precedida por “A Virgem e o Machão” (1974), Mojica só voltaria à comédia em seus filmes de sexo explícito. Ambos os filmes são assinados como J. Avelar, pois o produtor Augusto de Cervantes achava o nome José Mojica Marins vinculado demais ao Zé do Caixão e que isso poderia prejudicar a carreira das comédias.

Apesar de Como Consolar Viúvas ter todos os elementos de uma típica pornochanchada, com direito a nudez, insinuação sexual, gags diversas sobre a questão sexual, trama rasteira e muitas vezes inverossímil, etc, etc, o filme apresenta muitas característica do cinema de horror, tão íntimo à Mojica. A começar pela trama: bon-vivant decadente e endividado resolve dar um golpe em três irmãs viúvas ricas, que perderam seus respectivos num acidente de avião; para tal, se fantasia de cada marido e visita cada uma delas pedindo dinheiro – só não contava com a fúria de seus fantasmas.

O principal trunfo do longa de Mojica parece ser justamente esse: sua sapiência em trabalhar o horror em diferentes registros. Do apavorante, em seus filmes legítimos do gênero, ao paródico, no caso desse Como Consolar Viúvas, através do uso dos clichês do som e da música, de imagens distorcidas típicas de produções buscando criar uma atmosfera fantástica, e da presença do sobrenatural na criação de imagens cômicas (o ataque do vibrador assassino, por exemplo). O jogo feito por Mojica confere ao longa uma classe à produção deveras barata.

A comédia faz-se presente também nas auto-referências que o diretor faz, especialmente nos diálogos. Em determinado momento, acusam uma das viúvas, ao abrir a porta de roupas íntimas: “Parece atriz de pornochanchada”. O riso só não é mais fácil quando falam que os mistérios que permeiam as viúvas são coisas de “filme do Zé do Caixão”.

Fora do escopo da construção da comédia, mas não totalmente, é interessante notar a defesa da liberdade sexual dos personagens do filme e de uma certa libertinagem sadia, que Mojica imprime no roteiro de Georgina Duarte. Há, no longa, um conflito de gerações, que opõe pai e irmã e as filhas. Os primeiros, de uma linhagem retrógada, defendem o luto das filhas por tempo indeterminado – e isso significa a clausura delas na casa -, bem como discriminam qualquer interesse sexual que possam exprimir; as segundas, apenas querem aproveitar a jovialidade que ainda possuem. E o curioso é que as proibições são os fatores causadores de todas as enrascadas por vir. É aquela coisa: se as viúvas não estivessem contidas, jamais se entregariam ao que julgavam ser o fantasma do marido e não engravidariam ou perderiam dinheiro.

A outra questão está mais ligada ao imaginário da população brasileira. Aquiles, o decadente e endividado, é um típico vigarista. O que o move é enganar o próximo, de maneira desonesta, para seu próprio bem, levando uma boa grana nisso. Para o vigarista ser bem sucedido, alguém tem de cair em seu conto do vigário. Aí está a chave do filme, que lhe confere sua leveza e levanta os cabelos dos afeitos às explicações mínimas e completas. As viúvas caem em seu conto. Por quê? Oras, porque não fazem sexo há muito tempo e estão desesperadas pelo gozo, nem que isso signifique acreditar nos fantasmas dos maridos, pedindo coisas absurdas (p. e. levar uma quantia ‘x’ de dinheiro para um mendigo, para que uma questão fiscal no nome do defunto seja resolvida), apenas para que possam voltar a fazer sexo. É uma ideia muito bem trabalhada pelo historiador José Augusto Dias Jr. em seu livro “Os Contos e os Vigários”, de que quem cai no conto do vigário só faz isso pois acha que está tirando proveito da situação em detrimento de algo que não seria assim tão fácil – como conseguir sexo mesmo com a enorme tutela do pai e da tia. Mojica, claro, não está nem aí pra isso. Porque, as viúvas, enquanto fazem sexo, pouco se importam com quem lhes proporciona felicidade. Ou seja, a questão vai além de serem enganadas e fica na intransigência do prazer momentâneo.

*Publicado originalmente no site Cinequanon, em janeiro de 2013, dentro da coluna Viva a Boca do Lixo.

Sertão em Festa*
Direção: Osvaldo de Oliveira
Brasil, 1970.

Por Gabriel Carneiro

A Boca do Lixo sempre teve espaço para os mais diversos gêneros fílmicos, que iam, em geral, muito além da dita pornochanchada, a comédia maliciosa. Terror, faroeste, drama, policial, etc, etc. A Boca do Lixo fez também, com bastante sucesso, o chamado filme rural, sertanejo ou caipira. Filmes que se passavam no interior de São Paulo e que traziam personagens que moram no campo, ligados à agropecuária de subsistência. Esses filmes rurais podiam ser comédias, dramas ou musicais – ou tudo junto -, o que os liga é a prevalência do campo sobre a urbe. Inspirados no sucesso, entre outros e especialmente, do produtor, ator e diretor Amacio Mazzaropi, que ficou rico com as aventuras do Jeca, vários produtores e diretores se arriscaram na seara, via Boca do Lixo.

O diretor e fotógrafo Osvaldo de Oliveira já havia feito dois faroestes de cangaço “O Cangaceiro Sem Deus” e “O Cangaceiro Sanguinário”, ambos de 1969. O terceiro projeto para a Servicine, produtora de Alfredo Palácios e A. P. Galante, foi uma variação do universo do western: o filme rural, com Sertão em Festa, que traz a dupla sertaneja de enorme prestígio à época, Tião Carreiro e Pardinho. O sucesso foi tão grande que Oliveira logo emendou “Luar do Sertão” e “No Rancho Fundo”, ambos de 1971, e o faroeste “Rogo a Deus e Mando Bala” (1972). Pau de toda obra do Galante, Oliveira não voltaria mais ao universo caipira e desenvolveria longa carreira em outros gêneros, como a pornochanchada e o WIP.

Sertão em Festa narra a história de um caipira, Nhô Simplício, dono de um pedaço de terra onde descobrem petróleo. Aconselhado pelo filho, que estudou na cidade grande, no caso, São Paulo, vende a terra e se muda para lá. Traz com ele a filha, prometida a um camponês. Como de praxe no gênero, o campo triunfa sobre a cidade, vista como um antro de pessoas desonestas e enganadoras. O campo é puro em Sertão em Festa. Nele, evidencia-se que a simplicidade faz da pessoa melhor. Nem todos os filmes do gênero trazem essa conotação, mas a integridade sempre pertence ao homem do campo que é fiel às raízes.

Parte da graça do filme – e provavelmente o que faz dele delicioso de assistir – é o tom ingênuo com que é levado. Tudo no filme é muito claro, inclusive a malícia. Oliveira sabe que a trama é um tanto óbvia e o que vai acontecer efetivamente importa menos. A graça está na celebração anárquica, que alterna números musicais da dupla sertaneja, escrachos do comediante Saracura e o jogo de sedução entre Nhá Barbina e o mordomo interpretado pelo cineasta Carlos Reichenbach. É nítido o prazer com que o diretor retrata esse mundo; sua admiração é enorme. Não há falsa e barata sociologia ou antropologia do meio. Oliveira é o meio, é aquele universo. Por conta disso, o carinho com que retrata seus personagens e com que insere a música de Tião Carreiro e Pardinho, grandes músicos, menosprezados pela intelectualidade, é gigantesco.

Há também uma sutil crítica, muito baseada em estereótipos do matuto, mas que se casa com um ideal de vida bastante em voga na época, contra o capitalismo. O sábio é o velho caipira que, após vender a terra, sente um enorme vazio, porque perdeu seu canto, que era sua vida. Pra ele, a fortuna alcançada e o casarão comprado na cidade grande de nada valem, pois são apenas bens materiais. É o discurso da simplicidade sempre triunfante sobre a modernidade complexa e interminável. Não à toa, o filme se encerra com a melancólica “Tristeza do Jeca” – e que serviu de base para o filme homônimo do Mazzaropi, talvez o melhor do Jeca.

O filme rural da Boca encontraria também um forte expoente com Jeremias Moreira Filho e seus dramas musicais com Sérgio Reis, mais triste e mais saudosistas de um tempo que parece não mais existir, Ozualdo Candeias e seus filmes bastante críticos e algumas aventuras de Ary Fernandes, Rodrigo Montana, entre outros. Recentemente, Jeremias Moreira voltou ao gênero com a refilmagem de “O Menino da Porteira” (2009) e outro egresso da Boca, Fauzi Mansur, se arriscou na seara, com “Casamento Brasileiro” (2011), mas ninguém mais parece se ligar nesses filmes – ou não tem mais como arcar o abusivo preço do ingresso.

Quem quiser, pode ver o filme na íntegra aqui.

*Publicado originalmente no site Cinequanon, em dezembro de 2012, dentro da coluna Viva a Boca do Lixo.

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