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A Força dos Sentidos*
Direção: Jean Garrett
Brasil, 1979.

Por Gabriel Carneiro

De uns tempos pra cá, valorizar o cinema de Jean Garrett virou até meio clichê. Não por todo cinéfilo ou por todo crítico, evidente. O preconceito com o cinema da Boca ainda é grande e com cinema de gênero também. E Garrett vincula-se os dois. Mas o resgate da Boca trouxe à tona nomes que só a ela pertenceram – diferentemente de um Carlão Reichenbach, um Ozualdo Candeias ou um Guilherme de Almeida Prado, por exemplo -, e talvez o mais festejado, desses, seja justamente Garrett. Não à toa, claro. Garrett tinha pleno domínio técnico; seus filmes sempre pareciam bem produzidos e precariedade de orçamento não se transpunha para a tela. Diretor de grande sofisticação formal e estilística – enquadrava como poucos -, ainda ganhava muito por ser um ótimo diretor de atores (as musas Aldine Muller e Helena Ramos brotaram com ele, por exemplo). Aprendeu trabalhando como assistente de direção e ator, nos filmes de José Mojica Marins, e com o trabalho como fotógrafo. Em 1975, faz seu primeiro filme, “A Ilha do Desejo”.

A Força dos Sentidos é seu sétimo longa-metragem, filme seguinte ao grande sucesso de “Mulher, Mulher”. É bacana notar em Garrett a evolução de sua estética em seus primeiros filmes. 1979 foi um ano de grande amadurecimento para o cineasta (“Mulher, Mulher”; A Força dos Sentidos; “A Mulher que Inventou o Amor”). Curiosamente, A Força dos Sentidos (que para este que vos escreve é o melhor dos três) é o menos comentado e o mais obscuro deles.

O longa narra a viagem de um escritor a uma pequena aldeia na praia de uma ilhota. A ideia é que a imagem exuberante do local o inspire a escrever seu novo romance. É aí que entra a mão de Garrett. Em cima do roteiro coescrito com Waldir Kopesky, o diretor ambienta o filme de maneira bastante soturna. É, em geral, o grande trunfo de Garrett: a atmosfera de seus filmes, que, mesmo quando fogem do gênero fantástico, carregam um caráter lúgubre e sombrio. Nos fantásticos, isso é escancarado. O horror surge de um extravaso melancólico: medo, ansiedade, incerteza. São características que imbuem seus protagonistas. O escritor, em A Força dos Sentidos, precisa de todo aquele mistério para sair do bloqueio. O mistério surge da ambientação, por isso a noite é tão importante. O escuro permite um recorte, ou seja, a visualização fragmentada do objeto, o que o instiga a continuar sua busca, seja ela qual for.

Outro fator recorrente na ambientação dos filmes de Garrett é a necessidade de expor uma pretensa erudição. Seus personagens são sempre bem de vida e cultos. Não à toa, o protagonista de A Força dos Sentidos é um escritor, um profissional das artes, que pode se dar ao luxo de passar dois meses numa viagem por conta de seu livro. Não só, é um escritor que fuma cachimbo. A música vem reforçar isso. Garrett só usa compositores clássicos: Rachmaninoff, Ravel, Messiaen e Penderecki.

Aliás, os filmes de Garrett nunca foram tão bem filmados quanto os com fotografia de Carlos Reichenbach. São nesses filmes, talvez muito por influência do próprio fotógrafo, que os planos inusitados mais bem construídos fazem-se presentes e que os movimentos de câmera ganham enorme suavidade, especialmente na transição ou reenquadramento de personagens. Mas talvez sua maior marca seja o travelling circular, que Carlão usou muito em seus filmes enquanto diretor, seja aqueles que fotografava ele mesmo ou não. O travelling circular, aliás, funciona muito bem para o filme de Garrett: é a aproximação dos personagens, quase um casamento entre eles. Se, no longa, começa com o movimento em torno do escritor, observado pela linda surda-muda Pérola, o aprofundamento nas relações da ilha inverte o movimento: é Pérola que passa a ser objeto do escritor.

A Força dos Sentidos retrata também uma questão muito pungente – hoje talvez mais do que na época. O horror, em termos de conteúdo, nasce do fato de as pessoas não terem a menor recordação do que fazem à noite. São almas que perambulam e agem quase por impulso. A não consciência dos fatos dá, inclusive, um quê ao filme de A Invenção de Morel, livro do argentino Adolfo Bioy Casares. A questão é que os prazeres livres proporcionados pelo sexo só existem à noite. É quando as mulheres da ilha se entregam, mas também quando o escritor, que tem consciência do que vive, entrega-se. Não reprime, porém. Seu maior espanto é questionar as mulheres com quem dorme e elas dizerem de nada se lembrar. Ou seja, o sexo, o prazer, só vem à tona para essas mulheres quando perdem a consciência do ato, algo como se a repressão do superego fosse deixada de lado e todas as possibilidades valessem. Não à toa, essas mulheres parecem muito satisfeitas e felizes à noite, quando as questões cotidianas mundanas não dão mais as cartas, sem que a repressão moralista da sociedade a julgar – vide a personagem da caseira. No machismo reinante da Boca do Lixo (e do cinema brasileiro), Garrett, ainda que tratasse suas atrizes a punho de ferro, sempre foi um notável feminista.

*Publicado originalmente no site Cinequanon, em novembro de 2012, dentro da coluna Viva a Boca do Lixo.

Patty, a mulher proibida*
Direção: L. Gonzaga
Brasil, 1979.

Por Gabriel Carneiro

Patty, a mulher proibida é um desses filmes inexplicáveis. Explico: parece que não vai dar em nada. Um título genérico, um diretor desconhecido, um filme obscuro que pouco se comenta a respeito. Se já é assim no panorama do cinema da Boca do Lixo, imagine no resto. E, assim como se não quer nada, surge um baita filme. Os mais atentos e curiosos talvez cheguem a ele mais interessados na Helena Ramos como musa principal ou no escritor e roteirista Marcos Rey. Estão certos, mas há, nele, certamente, mais do que isso.

Adaptado pelo próprio Marcos Rey de seu conto Mustang Cor de Sangue, Patty, a mulher proibida narra a história do anão Jujuba, um apresentador televisivo infantil, muito rico, que se aproveita de sua posição para ganhar mulheres desesperadas pela luz do holofote. Típico das produções da época, o título visava a conquistar o público masculino através da beleza e do corpo de Helena Ramos, a tal Patty, uma mulher sedenta pela fama – ainda que o mustang pouco apareça no filme.

Isso porque quase toda a ação é centrada no casarão de Jujuba. Hábil escritor, Rey sabe como criar uma história policial verdadeiramente interessante, sem abdicar dos aspectos populares e mundanos. Além de Jujuba e de Patty, há também o Escriba, intelectual fadado a morrer de fome que é resgatado da penúria por Jujuba para escrever os roteiros do programa, a atuar como seu advogado e seu motorista. Escriba é um faz tudo submisso.

A partir dessa premissa, o diretor então estreante Luiz Gonzaga dos Santos (que apenas assina L. Gonzaga), pupilo de Jean Garrett, de quem foi assistente de direção, mostra um talento único, especialmente na Boca. Artesão da melhor estirpe, Gonzaga, que só faria mais um longa, Anúncio de Jornal (1984), tem pleno domínio de ritmo, é cuidadoso na decupagem e ainda é ótimo dirigindo atores – o Escriba talvez seja a grande atuação da vida de Roberto Miranda, que já era um ótimo ator, uma das melhores de Helena Ramos e Dilim Costa, o anão Jujuba, é um destaque à parte.

Há toda uma tensão em volta das três personagens, na linha tênue entre a atração e a repulsa. Gonzaga se aproveita disso para conduzir seu filme; é isso o que interessa, afinal de contas: a relação de poder, seja fruto do dinheiro, da fama, da inteligência ou do sexo, são todas armas usadas para desbancar uns aos outros. A influência do cinema noir é nítida, mas o cineasta avança nessa construção. Patty pode ser a razão da perdição, mas nele não se exclui toda a ganância e ambição nascido do desejo, da luxúria, sem a culpa cair em cima dela. Se o Escriba é apaixonado por aquela mulher que faz espetáculos eróticos no cabaré, isso não diz respeito à vontade de possuí-la antes e mais do que seu chefe. Mesmo porque o Escriba, melhor personagem do longa, representa a pura desilusão: submisso e covarde, tem a plena consciência disso tudo, da exploração, e não faz nada a respeito por um misto de comodismo e medo.

Esse aspecto mundano presente no roteiro de Marcos Rey e ressaltado por Gonzaga na escolha, especialmente, da arte do filme e na direção de atores, é o que fazem o longa tão vivo e tão necessário de ser visto: são os fudidos tentando se entender sem cair em fáceis psico ou sociologismos, sem politicagens – afinal, pouco importa se o rico é anão e negro, se a mulher é gostosa ou se intelectual se cansou da esquerda, o que vale, ali, são as relações humanas.

*Publicado originalmente no site Cinequanon, em setembro de 2012, dentro da coluna Viva a Boca do Lixo.

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